Em: Conto
20 set 2009E, de repente, eu me vi lutando contra aquelas grades, contra um grito anavalhado que me rasgava o peito, estancava nos lábios, sufocando-me como se afogado em meu próprio sangue. Alguma coisa muito estranha tomara conta de mim, e eu me sentia terrivelmente só em meio a olhares e bocas e pés e mãos que me cercavam. Me alucinavam. A consciência que tinha daquele instante e daquele lugar me vinha em ondas concêntricas, chegavam e se afastavam, se afastavam e voltavam, pedras jogadas à água, rio de mijo, onde, quando em vez, enfiavam minha cabeça por eternos minutos que me traziam e me roubavam, no segundo extremo, a morte desejada.
Alguém me segurou pelas costas, um outro afundou as garras em meus cabelos e ouvi chamarem por meu nome. A voz chegava distante, antiga, devagar e pálida como um afago, e eu senti uma vaga de frio desconhecido envolvendo meu corpo que ardia. Brasa ao vento. Fel.
E aí teve início a cerimônia final. Mãos experientes ganharam apêndices metálicos, frios, espelhando, aqui e ali, a chama breve de um cigarro, cuja fumava enevoava o mundo. Pedaços de carne se agarravam às garras do instrumento da sagração última, e, pouco a pouco, me foram despindo da pele que carreguei por todos esses vinte e tantos anos que quase vivi. Quando, por fim, me deixaram enrodilhado ao canto, me dei conta do que restava de mim: um brilho só, que me fascinava; um brilho que sangrava azul.
Dias antes (ou teriam sido anos, séculos, tempo sem tempo?), quando os homens deixaram Zacarias com o corpo que era uma chaga só, ele gritava rouco e louco que matassem logo ele, que não deixasse ele como festa para moscas e tapurus. Zacarias, hoje eu sei, não devia ver nada azul, nada além de uma dor lancinante, insuportavelmente crua e real como um dia sem sol. Eu, não. Quando estenderam minha pele no varal, e eu me vi nu de meu fardo, não foi dor que senti não. Foi leveza. Orgasmo que se sustenta com um acorde sem fim. Eterno.
Meu nome era Policarpo…
©Bosco Sobreira
Cearense de Canindé, vivendo em Fortaleza. De profissão, médico. Por escolha, viajor-aprendiz das sendas luminosas e dos grotões soturnos da mente humana. Em seu currículo como escrevinhador consta um livro de poemas nunca publicado, receitas médicas e atestados de sanidade mental, os últimos um verdadeiro milagre nestes tempos de aridez e solidão.
3 Comentários para Tempo de Espantar Fantasmas
Claudinha
20 setembro, 2009 às 2:15 pm
Olá Bosco!
Os fantasmas devem ser espantados, principalmente estes… Li imaginando a cena, tal qual quando li sobre a execução de um dos Buendía, Gabo em um de meus preferidos. Tenho o mesmo gosto em te ler.
Beijo e ótima semana!
Nivaldete Ferreira
21 setembro, 2009 às 6:38 pm
Mais expressionista, impossível… Nem O Grito, de Munch… É preciso coragem, além de talento, para trazer ao estético o verossímel dos horrores humanos. Grande abraço.
Jota Effe Esse
22 setembro, 2009 às 4:43 am
Pesadelos assim só no inferno, mas, e se o inferno é aqui? Tô fora! Meu abraço.