O tempo passou
ante meus olhos
como uma estrela cadente
Escorreu entre meus dedos
arrebatador e fugaz
como um gozo solitário
Impossível detê-lo
aprisioná-lo em meu
peito
acarinhá-lo
doce e amorosamente
como a uma criança
que não envelhece nunca
Só me resta
então
lamber as horas
degustá-las
pouco a pouco
como a um vinho raro
sorvê-las lenta
desesperadamente
lento
e
profundo
como se fosse
o último dos beijos
ou
a definitiva manhã
©Bosco Sobreira
In: Poesia
24 dez 2007Quantas grávidas
repetem neste dia
uma história vivida dois mil anos atrás?
Como Maria
muitas não terão onde parir
e haverão de percorrer
hospitais
que dizem não
maternidades
que fingem dormir
na tal noite
dessa terra desolada
onde já não florescem sonhos
©Bosco Sobreira
Despudoradamente
estrelas me piscadelam
enquanto
namoro a lua
©Bosco Sobreira
Cearense de Canindé, vivendo em Fortaleza. De profissão, médico. Por escolha, viajor-aprendiz das sendas luminosas e dos grotões soturnos da mente humana. Em seu currículo como escrevinhador consta um livro de poemas nunca publicado, receitas médicas e atestados de sanidade mental, os últimos um verdadeiro milagre nestes tempos de aridez e solidão.