Canindé

Postado por Bosco Sobreira em Poesia

29 jul 2014

Da minha terra
guardo pedaços de noites
um banco na praça
e amigos incrustados
em gemas
guardadas no leito
de um rio preciosíssimo
que corre caudaloso e feliz
no mais fundo
de minh’alma

Alguns já partiram:
Benitos Robertos Toinhos
mas estão todos bem ali
(à minha espera)
em um dos mil e seiscentos
botecos
desta minha terra
de sonhos e magia

Da minha terra
guardo nacos de saudade

©Bosco Sobreira

Um violinista no telhado

Postado por Bosco Sobreira em Poesia

21 jul 2014

São três horas da manhã/um sábado qualquer
de um tempo em que cães e gatos já não me visitam
como antigamente

Alguma coisa se perdeu nos descaminhos e ruelas
de minha alma
e eu nem me dei conta
contando que estava
os pingos de estrelas fugidias
enquanto me aventurava pelos desertos desta cidade
sem nome
que me habita

Sei
(por ouvir dizer)
que sentado no telhado da casa que me aprisiona
um violinista tece uma canção de embalar os mortos
sob o olhar sombrio de canafístulas que retornam
de minha infância

Algumas vezes
quando o vento se insinua em minhas veias
e o pó das horas deita respingos
de outras eras
pelas paredes do quarto
que me sufoca
eu consigo ouvir um brevíssimo rasgar de cordas
feridas
e compreendo

©Bosco Sobreira

Ato de Amor

Postado por Bosco Sobreira em Poesia

14 jul 2014

A Liana, com todo e um pouco mais do infinito Amor

Caminho pelas ruas
avenidas
escombros
desta cidade sem alma
como se nada houvesse
além do sorriso
e dois olhos amorosos
que escolheram
um dia
cuidar de mim

Sei
(enquanto ela investe
corajosamente
contra máquinas
semáforos
e
insanos motorizados)
que a praia do Jacarecanga
está à minha direita
inapelavelmente igual
às águas que banharam minha
infância
mas não a vejo:

É noite
e estamos os dois
a caminho de uma esperança radioativa
traiçoeiramente sedutora
à espera de minha
relutante entrega
enquanto pássaros e azuis e amanheceres
me acariciam o peito
e embalam minh’alma

Não tanto
(e imensamente monumental)
quanto
o sorriso
e dois olhos amorosos
que escolheram
um dia
cuidar de mim

© Bosco Sobreira

Paixão e Morte de Monte Santeiro

Postado por Bosco Sobreira em Conto

11 jul 2014

À memória de Monte Pintor, artista e boêmio, que me permitiu, quando eu ainda era uma criança, acompanhá-lo em seu ateliê móvel pelos botequins de Canindé.

Monte Santeiro, ao longo da primeira semana do novo ano, assiste atônito a estranhos acontecimentos.

No primeiro dia, ao retocar a pequena imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, no exato momento em que o estilete sutilmente fere o gesso à altura de seu venerando peito, o manto abre-se lenta e delicadamente para a albíssima nudez da Virgem Mulher. Um filete de sangue vivo escorre de seu bendito ventre convulso e a Mulher sorri.

Monte Santeiro apara entre os dedos um Menino Deus azul.

Segue-se ao parto o doce e cintilante sorriso da Imaculada. Ela estende os braços para receber das mãos trêmulas do artesão o filho amantíssimo que aninhará em seu sacratíssimo colo nu.

Uma luz fortíssima ilumina, por um breve instante, o milagre da maternidade para logo dissipar-se na longa noite que se abateu sobre o êxtase do velho santeiro.

No segundo dia, a vigília do velho é visitada pelo Arcanjo Gabriel. O Primeiro dentre os anjos aproxima-se solene e respeitosamente, ajoelha-se à curta distância e deposita nas mãos estendidas do Velho Santeiro a espada flamejante. A queimadura abre duas chagas profundas e um odor de incenso e mirra espalha-se pelo mundo. Monte Santeiro não sente dor e sorri.

No terceiro dia, mal os sinos começam as badaladas do meio dia, o artesão é acometido de uma estranha premonição, e desembesta à procura da Basílica.

Ao longo do caminho que se abre em mil, que se enovela, o velho é acompanhado unicamente por seus gritos de alerta, avisando ao povo, entorpecido pelo calor, do desastre iminente.

Na torre direita da Basílica, Monte Santeiro pôde ver ao longe – e isso o alucina! – abriu-se uma fenda profundíssima por onde saem, aos milhares, anjos do demônio que, em vôos rasantes, deitam fumo e enxofre sobre a cidade e suas criaturas. Todos – e isso o alucina! – estão cegos diante da visão que enlouquece o mestre.

No quarto dia, arrasta seu desvario pelas ruas coalhadas de peixes e crianças apodrecidas.

No quinto, a febre imobiliza seus pés e o corpo entra em convulsão.

No sexto, o dos Reis, um grito lancinante põe fim a sua agonia.

No sétimo, é enterrado, ao final da tarde. Em sua cova nenhum registro. Ninguém sabia sequer seu verdadeiro nome. Nunca viriam a saber.

© Bosco Sobreira

Sobre o Autor

Cearense de Canindé, vivendo em Fortaleza. De profissão, médico. Por escolha, viajor-aprendiz das sendas luminosas e dos grotões soturnos da mente humana. Em seu currículo como escrevinhador consta um livro de poemas nunca publicado, receitas médicas e atestados de sanidade mental, os últimos um verdadeiro milagre nestes tempos de aridez e solidão.

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  • www.acordacordel.blogspot.com: Dr. Bosco, você sempre demonstrou muito talento e sensibilidade para as letras. De certo modo, infl [...]
  • tbonito: Amigo, Mas que surpresa boa! Regressou ao fim de tanta ausência com uma delícia de poema. Já t [...]
  • Bosco Sobreira: Obrigado, meu amigo. Fico muito feliz e honrado com sua visita e, de quebra, com sua generosidade. [...]

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