Cansaço

Postado por Bosco Sobreira em Poesia

7 ago 2014

estou cansado
de captar a única réstia de luz
em meio às sombras deixadas
por este eterno
(re)caminhar
pelas vielas de mim

estou cansado
porque as palavras pesam
as palavras doem
as que nos põem desnudo e frágil
(no mundo mal disposto)
as que não se resistem poema

estou cansado
de pouco ser de pouco me bastar
que o homem não escapa
por (in)completo
da indigestão de ser neste instante
e
neste lugar

(estou cansado)

estou cansado
de recolher os cacos deste roto
arremedo de mundo
que não elegi
e
fere faca punhalada
que só dói em mim
a certeza de que esta dor exangue
nunca sangrará poemas

lá fora
um gato corta a escuridão sem fim do dia

©Bosco Sobreira

Canindé

Postado por Bosco Sobreira em Poesia

29 jul 2014

Da minha terra
guardo pedaços de noites
um banco na praça
e amigos incrustados
em gemas
guardadas no leito
de um rio preciosíssimo
que corre caudaloso e feliz
no mais fundo
de minh’alma

Alguns já partiram:
Benitos Robertos Toinhos
mas estão todos bem ali
(à minha espera)
em um dos mil e seiscentos
botecos
desta minha terra
de sonhos e magia

Da minha terra
guardo o calor e o brilho
de sua gente
que em nada devem
ao sol que nos abraça

©Bosco Sobreira

Um violinista no telhado

Postado por Bosco Sobreira em Poesia

21 jul 2014

São três horas da manhã/um sábado qualquer
de um tempo em que cães e gatos já não me visitam
como antigamente

Alguma coisa se perdeu nos descaminhos e ruelas
de minha alma
e eu nem me dei conta
contando que estava
os pingos de estrelas fugidias
enquanto me aventurava pelos desertos desta cidade
sem nome
que me habita

Sei
(por ouvir dizer)
que sentado no telhado da casa que me aprisiona
um violinista tece uma canção de embalar os mortos
sob o olhar sombrio de canafístulas que retornam
de minha infância

Algumas vezes
quando o vento se insinua em minhas veias
e o pó das horas deita respingos
de outras eras
pelas paredes do quarto
que me sufoca
eu consigo ouvir um brevíssimo rasgar de cordas
feridas
e compreendo

©Bosco Sobreira

Ato de Amor

Postado por Bosco Sobreira em Poesia

14 jul 2014

A Liana, com todo e um pouco mais do infinito Amor

Caminho pelas ruas
avenidas
escombros
desta cidade sem alma
como se nada houvesse
além do sorriso
e dois olhos amorosos
que escolheram
um dia
cuidar de mim

Sei
(enquanto ela investe
corajosamente
contra máquinas
semáforos
e
insanos motorizados)
que a praia do Jacarecanga
está à minha direita
inapelavelmente igual
às águas que banharam minha
infância
mas não a vejo:

É noite
e estamos os dois
a caminho de uma esperança radioativa
traiçoeiramente sedutora
à espera de minha
relutante entrega
enquanto pássaros e azuis e amanheceres
me acariciam o peito
e embalam minh’alma

Não tanto
(e imensamente monumental)
quanto
o sorriso
e dois olhos amorosos
que escolheram
um dia
cuidar de mim

© Bosco Sobreira

Sobre o Autor

Cearense de Canindé, vivendo em Fortaleza. De profissão, médico. Por escolha, viajor-aprendiz das sendas luminosas e dos grotões soturnos da mente humana. Em seu currículo como escrevinhador consta um livro de poemas nunca publicado, receitas médicas e atestados de sanidade mental, os últimos um verdadeiro milagre nestes tempos de aridez e solidão.

Vídeo da Semana

  • tbonito: Tão bela esta homenagem, meu amigo. Certamente de lá, onde quer que esteja, o teu amigo sorri. :) [...]
  • tbonito: Tão belo poema para esses olhos que cuidam amorosamente... Que maravilhosa surpresa foi encontrar [...]
  • Natália: Ei, Bosco, que tal postar algum poema/poesia no FB? Vamos divulgar mais, né? beijos [...]
  • Araceli Sobreira: Olá, Bosco, Visitando sua página e já gostando do que vi por aqui. Abraço do Pedra do Sert [...]
  • Thadeu Chaves: Salve, grande xamã do baixo Jaguaribe! Apenas para agradecê-lo pela indicação do seu blog e para [...]
  • www.acordacordel.blogspot.com: Dr. Bosco, você sempre demonstrou muito talento e sensibilidade para as letras. De certo modo, infl [...]
  • tbonito: Amigo, Mas que surpresa boa! Regressou ao fim de tanta ausência com uma delícia de poema. Já t [...]
  • Bosco Sobreira: Obrigado, meu amigo. Fico muito feliz e honrado com sua visita e, de quebra, com sua generosidade. [...]

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