Sonhar auroras e debulhar serenos
em cada viga desse deserto de concreto
que me espia
atônito
é minha fortaleza
meu refúgio
minha sina
Madrugo pelos dias
como uma ave sem pena
como uma pena sem dor
(Doer é para os que sabem de verbos)
©Bosco Sobreira
Postado por Bosco Sobreira em Conto
20 set 2009E, de repente, eu me vi lutando contra aquelas grades, contra um grito anavalhado que me rasgava o peito, estancava nos lábios, sufocando-me como se afogado em meu próprio sangue. Alguma coisa muito estranha tomara conta de mim, e eu me sentia terrivelmente só em meio a olhares e bocas e pés e mãos que me cercavam. Me alucinavam. A consciência que tinha daquele instante e daquele lugar me vinha em ondas concêntricas, chegavam e se afastavam, se afastavam e voltavam, pedras jogadas à água, rio de mijo, onde, quando em vez, enfiavam minha cabeça por eternos minutos que me traziam e me roubavam, no segundo extremo, a morte desejada.
Alguém me segurou pelas costas, um outro afundou as garras em meus cabelos e ouvi chamarem por meu nome. A voz chegava distante, antiga, devagar e pálida como um afago, e eu senti uma vaga de frio desconhecido envolvendo meu corpo que ardia. Brasa ao vento. Fel.
E aí teve início a cerimônia final. Mãos experientes ganharam apêndices metálicos, frios, espelhando, aqui e ali, a chama breve de um cigarro, cuja fumava enevoava o mundo. Pedaços de carne se agarravam às garras do instrumento da sagração última, e, pouco a pouco, me foram despindo da pele que carreguei por todos esses vinte e tantos anos que quase vivi. Quando, por fim, me deixaram enrodilhado ao canto, me dei conta do que restava de mim: um brilho só, que me fascinava; um brilho que sangrava azul.
Dias antes (ou teriam sido anos, séculos, tempo sem tempo?), quando os homens deixaram Zacarias com o corpo que era uma chaga só, ele gritava rouco e louco que matassem logo ele, que não deixasse ele como festa para moscas e tapurus. Zacarias, hoje eu sei, não devia ver nada azul, nada além de uma dor lancinante, insuportavelmente crua e real como um dia sem sol. Eu, não. Quando estenderam minha pele no varal, e eu me vi nu de meu fardo, não foi dor que senti não. Foi leveza. Orgasmo que se sustenta com um acorde sem fim. Eterno.
Meu nome era Policarpo…
©Bosco Sobreira
Postado por Bosco Sobreira em Conto
16 set 2009Apressado. Ele sempre está assim. Apressado. Dois, sempre dois passos atrás do tempo que ele nunca alcança. Sempre soube disso, mas não se importa. Importar-se, pra quê? Acostumou-se. Acostumou-se àquela maratona louca que ele sabe impossível vencer, mas desistir, nem pensar. Excita. Descobrir o tempo mal disfarçado, ali na esquina, e desembestar atrás dele pode ser qualquer coisa ou nada. Mas isso não importa. Importa?
Atrasado. Sempre atrasado.
Enquanto aguarda que a maquininha lhe prepare o café, ele atravessa correndo o pequeno corredor, as mãos angustiando-se entre botões da camisa e os primeiros retoques na gravata, detém-se por um brevíssimo instante à porta do quarto e olha como se esperasse ver o corpo que por quarenta dias ali dormia, ou fingia dormir, enquanto ele se havia com o brinquedo do tempo. Ele não sabe, mas ela adorava acompanhar-lhe da cama o detalhado ritual de todas as manhãs. Tudo! Principalmente o preparo do café. Ele não sabe, mas ela sempre sorria quando o ouvia retirar o coador e socá-lo violentamente contra a parede da lixeira na tentativa de livrar-se da borra quase petrificada de tantas outras manhãs. Ele não via, ele nunca viu o sorriso dela nesses momentos, porque ele, o sorriso, por mais que representasse carinho, por mais que fosse a razão e o depositário de uma clara demonstração de amor, nem uma vez conseguiu infiltrar-se pelas paredes, viajar até a cozinha e ganhar forma diante dele e de sua luta contra a borra de café. Ele não sabe de tanta coisa! Não sabe, entre outras tantas, que ela solitariamente se fez tantas perguntas na tentativa de entender os muitos gestos sem palavras do seu homem, desde os mais simples aos mais complicados. O café, por exemplo. Ele adorava café, ou adorava a maquininha que lhe fazia o café? Ele fazia mesmo o café ou fingia acreditar que a cafeteira lhe trazia o Starbucks pra dentro de casa? É, ele nunca soube o quanto ela se interessava por seus pequenos e grandes gestos. Ele nunca viu o florescer de tantas luzes em sua alma, ele nunca ouviu os muitos sons de seu coração, enquanto ele se agitava desvairadamente atrás do tempo. Ele nunca viu esse sorriso; ele nunca saberá a cor e o som desse sorriso…
Ele sabe tão pouco. Ele viu tão pouco! Nunca soube, por exemplo, o que ela pensou sobre isso, nunca viu o que ela escreveu quando o silêncio a agoniava e ela não sabia mais o que fazer. Ele sabe tão pouco sobre tanta coisa! Ele não sabe, ele nunca saberá que ela venceu o silêncio. Ao desistir, ela venceu…
Ele entra no gabinete, vai ao computador como quem vai às compras, ao banco, à sinagoga, aos bares nos finais da tarde, e consulta os e-mails. São tantos. Um deles, o dela. Sem sentar-se, ele se curva sobre o monitor, e o lê rapidamente. O texto sugere alguma coisa de saudade, mas não parece ser um lamento. Ela falava de amor, isto deu pra ele compreender em meio à pressa. Ele só não se deu conta dos verbos no passado e de um amargo cheiro de despedida, alguma coisa que remetia a adeuses e aos nunca-mais. Mas, como compreender o efêmero, se ele só conhece o eterno? Como processar uma informação que fala de pretérito se ele desconhece a brevidade das coisas? Pra ele só o eterno conta; o breve, se existe, é apenas uma mal construída ilusão da eternidade. Foi graças a esse aleijão do espírito, que talvez ele tenha até sorrido, talvez ele tenha até pensado em responder qualquer coisa naquele momento, mas lembrou-se do café e do tempo. É. Certamente o tempo já devia ter começado a brincadeira de sempre, quem sabe já tivesse alcançado a segunda esquina, mal se escondendo por trás do quiosque do chinês que faz cópias de chaves, e ele preferiu deixar pra depois. Ficaria pra depois, determinou-se. Depois. Amanhã. Quem sabe, amanhã. Certamente, amanhã!
Amanhã, ele escreverá sobre o que nunca conseguiu falar, se promete num gesto sem rosto, quase magnânimo. Ele não sabe, mas ele bem que sabe, às vezes, emocionar-se de verdade! Amanhã, ele escreverá sobre o que tanto a inquieta: o silêncio. Falará das palavras que não foram ditas, dos gestos que não foram consumados, do tempo engolido pela voracidade do tempo. Uroboro!
Amanhã, ele terá todo o tempo do mundo.
No caminho para o trabalho, ele se distrai do tempo e se dá um tempo para ouvir a música que escapa do rádio. Nova Iorque está linda nesta manhã de setembro. Onze, o painel luminoso avermelha despudoradamente a data.
Onze de setembro, terça-feira. Lembra assim quase num susto. Dois dias que ela partiu, por um momento ele se permite lembrar. Dois dias. Parece que foi há tanto tempo!
Nova Iorque está linda, hoje. Num gesto mecânico, ele mexe no botão do rádio. Agora, uma música estranha, um som de terras exóticas lhe devolve a lembrança recente daquela viagem. A viagem de seus sonhos. Não que ele tenha querido pensar assim, mas a música, ou a cidade linda naquela manhã de terça-feira, o emociona de uma maneira estranha. Desconhecida. Ele se sente surpreendido por uma quase saudade meio doída, quase sentida. Uma meia saudade do que não existiu.
Tolice! De outra vez eu a levo comigo. Dias melhores virão.
É verdade. Ele tem todo o tempo do mundo.
Nova Iorque é linda!
Agora, a manhã é visitada por um velho rock. B.J.Thomas? Fragmentos de memória dos sessenta ameaçam invadir-lhe o espírito, mas ele os afasta com um rápido movimento no dial. Envelhecer dói, ele quase se permite pensar.
Nova Iorque é linda!
O outdoor imenso, que por um instante escondeu as Torres Gêmeas, lembra a ele que é preciso poupar e poupar muito e sempre. E que a velhice é pra ser muito bem vivida. Velhice! Poupar! Um despropósito alguém lembrar disto quando se está no centro do mundo, numa manhã linda de setembro.
Nonsense! Ele tem todo o tempo do mundo.
Agora ele caminha em direção a seu escritório. Um pouco antes, uma esquina antes, teve vontade de parar um segundo no Starbucks e tomar um expresso. Desistiu ao examinar o relógio. Tem nada não. Mais tarde ele terá tempo. Todo o tempo do mundo. Ele tem todo o tempo do mundo.
Um longo dia pela frente. Mais tarde, à noite, quando tranqüilamente tomar seu café e voltar correndo para casa, ele escreverá aquele poema que o persegue há tanto tempo, lerá o livro que mal começou há quase dois meses, ouvirá o disco que comprou no natal passado e, talvez, responda ao e-mail que ficou à espera na janela luminosa que sua pressa esqueceu de fechar.
Ele está quase feliz. Toma o elevador e lentamente é conduzido ao octogésimo oitavo andar.
Ele está feliz. Ele está no centro do mundo.
Nova Iorque está linda nesta terça-feira de setembro.
Nova Iorque é sempre linda, ele quase se permite dizer ao olhar a manhã de céus e azuis que se constrói lá fora.
Pela janela um pássaro gigante se aproxima…
Escrito na noite de 11 de setembro, 2001
©Bosco Sobreira
Cearense de Canindé, vivendo em Fortaleza. De profissão, médico. Por escolha, viajor-aprendiz das sendas luminosas e dos grotões soturnos da mente humana. Em seu currículo como escrevinhador consta um livro de poemas nunca publicado, receitas médicas e atestados de sanidade mental, os últimos um verdadeiro milagre nestes tempos de aridez e solidão.